domingo, 7 de Setembro de 2014

Poema adiado


A minha vida
tem sido uma tentativa
de poema
que dissipe o que houver
entre o olhar
e a cegueira
não transforme
ao ser
poema seja
inteligência
de quem não sabe
e não mente
seja
audível
para surdos
ao que gera silêncios
por onde o pensamento
se evade
o corpo
alguma vez
triunfe
do inenarrável
das prisões
de palavras
como a aurora
se erga
e ilumine
este vasto cemitério.

sábado, 23 de Agosto de 2014

Escrevo este poema porque



Escrevo este poema porque
Estou com um livro na mão

Passei o dia a ler
notícias
e a pensar

Tenho passado
metade da vida a ler
notícias
e outra metade a olhar
para o mundo
que não pára
de me surpreender

Escrevo este poema
porque
o tempo que não sobrou
passei-o
a viver
se é que isso importa
e se não importa
escusado será dizer.

sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

Desçamos à terra


Que o vão seja a forma
de um apenas
e haja forma de o ser
manter raízes
que a dor de saber
que nos condenas
oh, Deus! É uma dor
por aquilo que não dizes.

Não busco canto nem
dia perfeito
não busco nada
no que aparece
a maior parte
é este meu defeito
de acreditar
naquilo que acontece.

Como se a própria vida
 me traísse
embora eu pense
que o traidor sou eu
tenho pena por tudo
o que não disse
melancolia
pelo que morreu.

Estranha esta alegria
de estar vivo
estranho mundo
sob estranho céu
a minha vida
ganha algum sentido
se penso no sentido
que perdeu.

sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

Palácios confusos


Nunca os mesmos
cada vez que avistaram
meus olhos
de longe
na penumbra de anos
nas brumas de décadas
ali estão
e ali ficam
palácios confusos edifícios
memórias que me elevam
a uma transparência
calma
sem vícios.

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

É por seres como és


É por seres como és
que te sinto

a imensidão 
do deserto
e o instinto

nunca estive tão perto
de um labirinto
aberto

tão certo
que acredito
nos teus olhos

de um escuro infinito.


quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

Debruçada sobre o muro


Debruçada sobre o muro
Como uma multidão sobre a ponte
Mas sem ninguém ao pé
Com as ervas ouvindo
A tua respiração
Como se fosse um vento
Soprado da tua tempestade interior
Quarenta anos se debruçam
A chorar
Enquanto o sol canta nas asas
Da primavera à tua volta
Porque tu não queres ter a força
De enfrentar a lágrima
Com medo de que a tua vitória
Seja sobre ti mesma
O que de certo modo já acontece
Quando choras
Só para ti
Debruçada sobre a construção
Que te ampara
Entre dois lados
De um único mundo
Que o sol não conhece outro.

sexta-feira, 18 de Julho de 2014

Ninguém sabe morrer


Os velhos e velhinhas
a gente sem abrigo
que pede
pelas alminhas
vive
como castigo 
e

dos colos carregados
das lantejoulas
dos cenhos carregados
das angústias
dos peões
da soberba pachorra
de esperar
remédio
da virtude paciência
e

há sempre
muito ruído
muito brilho
muita cor
ladrões
à paisana
e polícias
nas esquinas
prostituição
a disputar a sensualidade
que há em tudo
e

a despesa de viver
o pecado
fechar os olhos
para ignorar
a bomba
que vai explodir
e

tanto filho da mãe
que anda a fugir
sem descanso
que não suporta a luz
nem a própria sombra
tanta faca
escondida
 e

deve haver
além de mulheres algures
ilícitas de tão carnais
amores imperfeitos
de tão legais
e

o livro da história
que não cessa
nem há tempo para ler
até numa biblioteca 
ninguém sabe morrer.

segunda-feira, 7 de Julho de 2014

Há coisas que queremos dizer


Há coisas que tu queres dizer
E não sabes como
Que eu quero
Mas não sou capaz
Que não dizemos
E tanto dói calar
Quanto o desejo
De falar.